O dado mais eloquente dessa investigação não é o contrato de R$ 108 milhões, nem os R$ 26 milhões pagos a mais. É um gráfico que não existe: 1.605 pontos de wi-fi ativos no fim de outubro de 2024 — em plena eleição municipal — contra 3.200 pontos em junho de 2025, oito meses depois. E, segundo representação da Polícia Civil de SP de maio de 2026, os 1.800 pontos restantes nunca foram instalados.
Leia esses três números na ordem certa e a história aparece sozinha. Em outubro de 2024, com a cidade votando, a instalação acelerou. Depois que o certame terminou, o ritmo desacelerou bruscamente. E o que faltava simplesmente não aconteceu. As investigações da Polícia Civil de São Paulo apontam que o Instituto Conhecer Brasil (ICB) — ligado a Karina Ferreira da Gama, produtora do filme «Dark Horse», obra sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro que teria sido financiada por Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master — antecipou a instalação dos pontos durante as eleições municipais de 2024.
«Interferência política direta»
A representação da Polícia Civil é explícita quanto à causa, e não deixa a frase no ar:
«Verificou-se, ainda, no conteúdo das informações, a notícia de que durante o período eleitoral de 2024, a instalação dos pontos foi consideravelmente antecipada por interferência política direta, alcançando 1.605 pontos ativos no final de outubro de 2024.»
Interferência política direta. Não é atraso, não é falha de planejamento, não é problema de fornecedor. É interferência política — e ela tinha direção e horário.
A conta do dinheiro adiantado
O ICB tem contrato de R$ 108 milhões anuais com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de wi-fi na periferia da capital. Durante as eleições, segundo a apuração, a prefeitura antecipou o pagamento de parte do contrato: R$ 69 milhões repassados no período, quando o valor devido seria de R$ 43 milhões. A antecipação, de R$ 26 milhões no total, representou prejuízo para a prefeitura, já que os serviços pagos não teriam sido prestados, conforme a denúncia recebida pela Polícia Civil.
Ou seja: a cidade pagou mais cedo, pagou mais, e recebeu menos do que pagou. O equipamento que não foi instalado — e que, pelas contas, nunca saiu do galpão — já havia sido faturado.
O contrato continua de pé
E é aqui que a história deixa de ser sobre 2024 e passa a ser sobre este mês. Até o momento, a Prefeitura de São Paulo mantém o contrato com o ICB, de Karina da Gama. Na manhã de sexta-feira (11), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) já havia anunciado que a gestão municipal acionaria o STF para entender com o ministro Flávio Dino se há necessidade de rompimento do contrato municipal.
Dino, por sua vez, determinou que a Polícia Federal abra um inquérito exclusivo para investigar o contrato e mandou suspender qualquer tipo de pagamento de contratos do Poder Público com o instituto. Como o caso envolve o deputado federal Mário Frias (PL-SP), que possui foro privilegiado, e há fortes indícios de que os fatos integram um único esquema de desvio e lavagem de dinheiro, o STF assumiu o processo.
A conta final: 1.605 pontos ligados às vésperas da votação; 3.200 oito meses depois, quando a eleição já não importava; 1.800 nunca instalados; R$ 26 milhões pagos a mais por serviço não prestado; e um contrato de R$ 108 milhões por ano que segue ativo enquanto o STF manda suspender pagamentos e a PF abre inquérito próprio. A defesa natural será a de sempre: «falha administrativa». Mas falha administrativa não escolhe calendário eleitoral — e o calendário, aqui, é a única coisa que não falhou. Quem decide se a prefeitura deveria ter enxergado isso antes é o eleitor paulistano — e a pergunta prática que fica é simples: se o serviço não foi prestado, por que o contrato ainda está de pé?